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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

toto meu cao sonho eterno

Hoje, sou mãe de cachorro. Mas já fui irmã. Dá até mesmo para dizer que já fui filha. E como toda história tem um começo, o meu chama-se Tóto, o animal que até hoje ocupa em meu imaginário a imagem de cão perfeito, a inteligência encarnada em quatro patas.

Tóto foi meu pai, meu irmão, meu melhor amigo e, depois de 1987, minha mãe.

Sim, o nome está correto. Não é Totó e sim, Tóto. Totó é qualquer vira-latas simpático que nos cruza o caminho e de quem não temos a menor idéia do nome, se é que o pobrezinho tem um...

Já o Tóto, foi um cão de porte pequeno querendo ser médio. O mais puro dos vira-latas com quem já tive a felicidade de conviver. De pelagem média, rabo exibido virado para cima e tocando nas costas, era todo preto e branco, mas tinha a cabeça preta, e nela um rio de pêlos brancos nascia no focinho correndo no centro da cabeça para desaguar na pelagem branca da cernelha.

Meu primeiro amor chegou num dia feliz. Era o almoço de comemoração da aprovação do meu irmão no vestibular. Naquela época, eu tinha pai, mãe, irmão e cinco anos. Tóto apareceu trazido pelo cheirinho da comida e foi ficando. Ele, literalmente, nos escolheu. Ia e voltava. Sempre com intenções gastronômicas. Mas eu já o amava e tinha colocado um nome nele, Snoopy. Mas quem disse que eu decorava o tal nome estrangeiro? Apesar de parecer perfeito, pois ambos eram das mesmas cores e super fofos, Snoopy virou Tóto. Bem mais brasileiro, fácil e sonoro. Além de original, claro!

Como eu não andava nada feliz com as idas e vindas do meu irmão peludo, implorei a meu pai que desse a ele o título de ‘cão da família’. Na vila militar onde morávamos então as casas não podiam ter muros ou cercas, mas quem disse que o Tóto queria ficar preso, ainda que fosse num arame bem comprido ao longo do quintal, onde ele podia correr por tudo? Ou que queria saber de dormir na casa grande e bonita que ganhou?

Foi então que tive a primeira lição canina da minha vida: liberdade é fundamental. Um ‘simples cão’ me ensinou algo que procuro usar em minha vida até hoje: dar liberdade a quem você ama.

Quando descobrimos que Tóto preso era sinônimo de Tóto sofrendo e que Tóto dentro da casinha, só se estivesse muito doente, o deixamos livre, leve e solto. Foi aí que ganhamos seu amor e fidelidade definitivos. Tive a benção de crescer em contato direto com a natureza, sempre brincando com meu irmão Tóto.

Mas nem tudo foram flores em nossa história de amor e amizade. Quando eu tinha nove anos, meus pais separaram-se e eu e minha mãe voltamos para Florianópolis, cidade natal dos dois. E quem ficou para trás, para meu desespero supremo? O Tóto...

Foram seis meses longe dele e sinto as saudades daquela época na minha alma até hoje. Quando falava com meu pai ao telefone, só queria saber como o Tóto estava, o que fazia etc. Mas com a depressão profunda de minha mãe, voltamos a Campo Grande, ou seja, ao Tóto! E pude viver mais quatro anos a seu lado antes de mudar novamente de cidade.

Meses depois, com dez anos, perdi minha mãe. Tóto ficou em minha vida um ano a mais que ela. E seja por esta ou aquela estratégia de bloqueio emocional, tenho hoje mais lembranças do meu amado Tóto do que de minha mãe.

Foram onze anos na vida da minha família, participando comigo de dramas familiares, separações, mortes, casamentos, mudanças e nascimentos. Conforme os dramas desenrolavam-se, Tóto deixava de ser meu irmão e passava a ser meu melhor amigo, minha mãe, meu primeiro e mais longo amor canino. Até hoje sonho com ele e acordo chorando, ansiando por um reencontro.

Para minha tristeza eterna, meu Tóto não morreu perto de mim. Transferiram meu pai para o Maranhão e lá moraríamos obrigatoriamente em apartamento. Ainda fiquei para trás, morando com o Tóto, meu irmão, sua esposa e minha primeira sobrinha por um ano, sempre na mesma vila militar porque meu irmão acabou também seguindo carreira na Aeronáutica, mas depois tive que ir morar com meu pai. Depois de um ano, voltamos para Florianópolis e eu só falava em ir buscar o Tóto. Não deu tempo...

Não esqueço da dor imensa quando soube que ele havia morrido, mas, mais do que tudo, seguem comigo as lições de amor, amizade e lealdade que meu amado Tóto me ensinou e que com certeza fizeram de mim a mãe de cachorro e, com certeza, o ser humano que sou.


fonte: http://www.pmf.sc.gov.br/bemestaranimal/algumas_historias-002.html
Texto: Ana Corina
Colunista do Jornal Notícias do Dia e autora do blog www.maedecachorro.com.br


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